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Denúncia do Ministério Público aponta omissão e bebê segue sem transferência mesmo com decisão da Justiça

Arthur Luis Ferreira Amorim, de seis meses, está internado há mais de 130 dias em Pouso Alegre; Ministério Público de Minas Gerais alega descumprimento de decisão judicial por parte do Estado

Um bebê de seis meses permanece internado no Hospital das Clínicas Samuel Libânio, em Pouso Alegre (MG), sem receber o tratamento adequado, apesar de um pedido da Justiça, determinando sua transferência para uma unidade de referência em São Paulo. Segundo o Ministério Público de Minas Gerais, o Estado mineiro descumpriu a decisão. 

Arthur Luis Ferreira Amorim nasceu em 29 de outubro de 2025, em Extrema, sul de Minas Gerais. Com 18 horas de vida, o recém-nascido rejeitava a amamentação e apresentava distensão abdominal. Devido ao quadro delicado, a criança foi transferida ao Samuel Libânio em Pouso Alegre, onde foi diagnosticado com atresia de íleo — malformação congênita que obstrui o trânsito intestinal. Desde a internação, Arthur não deixou o hospital.

Entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, o bebê passou por quatro cirurgias abdominais de grande porte. Na terceira, realizada em 19 de dezembro, os médicos identificaram enterocolite necrosante difusa — destruição progressiva do tecido intestinal. Dois dias depois, na quarta intervenção, o segmento intestinal remanescente havia entrado em necrose completa. O intestino residual mostrou-se insuficiente para sustentar as funções vitais sem suporte artificial, configurando a “síndrome do intestino curto”

A condição exige nutrição permanente, acompanhamento multidisciplinar e programa estruturado de reabilitação intestinal — protocolo que o próprio corpo clínico do Samuel Libânio reconheceu, em relatório, não dispor. Ao longo da internação, Arthur contraiu diversas infecções, e precisou passar por múltiplas transfusões, episódios de choque séptico, intubação, extubação e, por fim, reintubação.

“Os médicos já desistiram”

Segundo relato dos familiares, a equipe médica do hospital comunicou que não adotaria mais nenhuma medida terapêutica em favor do bebê. Segundo a tia de Arthur, os médicos informaram que não realizarão reanimação caso necessário, não haveria novas transfusões e que nenhum procedimento adicional seria iniciado. Segundo os relatos, a família foi pressionada a autorizar a desconexão dos aparelhos da criança, porque “ele está morrendo”.

Desde a transferência de Arthur para a UTI, por volta do dia 30 de abril, ele não recebe alimentação adequada. 

“Antes ele estava com a dieta direto na veia. Agora só tem o soro para manter a glicose”, afirmou a tia do bebê. “O Arthur está lutando. Os médicos já desistiram, mas o Arthur não desistiu.”

Questionados sobre as alegações da família de Arthur, o hospital informou em nota que a instituição não está autorizada a compartilhar informações com terceiros, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), visando a preservação da privacidade e da confidencialidade das informações do paciente e familiares.” O hospital não respondeu à outras perguntas.

Lesões e denúncia

O recuo médico apresentado pela família de Arthur foi parar na delegacia, quando o pai da criança acionou a Polícia Militar (PM) após um desentendimento com a equipe médica da unidade no dia 5 de maio. Segundo o Boletim de Ocorrência (B.O.), o estopim foi devido à notícia de que Arthur passaria a receber tratamento paliativo, com uso de morfina, sem reanimação cardíaca em caso de parada, além de procedimentos que teriam sido mal conduzidos na criança.

O pai, Waltemberg Amorim, 24 anos, relatou às equipes policiais que o bebê havia sido submetido à procedimentos médicos de forma inadequada. Segundo ele, a última ação provocou má circulação no sangue dos dedos indicador e médio da mão direita. A situação se agravou, com a mão da criança atingindo uma coloração roxa. Segundo o B.O, ao solicitar a retirada do dispositivo, os pais foram informados pelos profissionais de saúde de que a coloração era “normal”. O acesso só foi removido após uma segunda solicitação, quando o roxo já havia se disseminado pelo antebraço inteiro. 

Ainda segundo o B.O., o médico plantonista confirmou às equipes policiais que houve conversa com os pais sobre a adoção do tratamento paliativo. Segundo ele, Arthur se encontra em insuficiência hepática, e foi submetido a cirurgia intestinal. 

A ordem judicial teria sido ignorada

Apesar da denúncia formal junto à autoridade policial, o caso não é novidade na Justiça mineira. O Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG) ajuizou uma Ação Civil Pública contra o Estado requerendo a transferência urgente de Arthur ao Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, em São Paulo, referência nacional em reabilitação intestinal pediátrica.

O juiz da 1ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Extrema deferiu a tutela de urgência no começo de abril, fixou prazo de 24 horas para a transferência e estabeleceu multa de R$5 mil por dia de descumprimento. Mesmo após a decisão da Justiça, Arthur segue no mesmo leito em Pouso Alegre. Segundo documentos obtidos pela reportagem, recentemente o MPMG retornou ao juízo relatando piora clínica do paciente, ausência de qualquer providência por parte do Estado e requerendo majoração das multas.

Em nota, a Secretaria de Saúde do Estado de Minas Gerais informou que após o recebimento do mandado judicial, em 16/04/2026, o paciente foi imediatamente cadastrado no sistema de regulação estadual. A partir desse registro, iniciou-se a busca por leito compatível com as condições clínicas apresentadas.

Ainda segundo a pasta, Arthur segue aguardando a confirmação da reserva de vaga, e que a busca mais recente foi realizada junto à Santa Casa de Passos, na madrugada desta quarta-feira (13). 

Ainda no pedido à Justiça, o MP solicitou à Polícia Militar a apuração de responsabilidade criminal dos gestores responsáveis — por desobediência e omissão de socorro. A promotoria indicou nominalmente o Coordenador Regional de Saúde e a Coordenadora Estadual, como os responsáveis pelo descumprimento. A pasta não comentou sobre o novo pedido do MPMG.

Nota na íntegra

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informa que, após o recebimento do mandado judicial, em 16/04/2026, o paciente foi imediatamente cadastrado no sistema de regulação estadual. A partir desse registro, iniciou-se a busca por leito compatível com as condições clínicas apresentadas.

O processo de regulação é realizado pela Central de Regulação do Estado, que atua de forma ininterrupta para identificar, em toda a rede do Sistema Único de Saúde em Minas Gerais, a vaga que atenda aos requisitos técnicos necessários para o procedimento indicado.

A SES-MG ressalta que a disponibilidade de leitos de alta complexidade é variável e depende da dinâmica da rede hospitalar, pública ou privada conveniada, podendo influenciar no tempo de resposta, especialmente em casos que exigem recursos altamente especializados.

O paciente segue aguardando a confirmação da reserva da vaga e a busca mais recente foi realizada junto a Santa Casa de Passos em 13/05/2026, às 02:04h.

A Secretaria reforça que todos os esforços estão sendo envidados para viabilizar a transferência no menor tempo possível, em consonância com a determinação judicial e as necessidades assistenciais do paciente.

Por fim, em atendimento à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a SES-MG não pode divulgar informações individualizadas referentes a pacientes cadastrados no SUSfácilMG.

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